Fortunas Voláteis


 

Uma pesquisa feita nos últimos 22 anos entre as maiores fortunas do mundo revelou um resultado que deve ser encarado, no mínimo, como digna de registro para aqueles que hoje se dedicam a viver de rendimentos ou mais ainda a todos que, no presente, estão preocupados, e muito focados, em acumular um patrimônio que possa dar tranqüilidade aos seus descendentes. Atenção, não basta tornar-se rico. Um dos maiores desafios é conseguir que seus herdeiros também sejam preparados para agregar valor à fortuna.

Em pouco mais do que apenas duas décadas, os que eram considerados ricos no final dos anos 80 tiveram uma profunda alteração do seu perfil. Apenas 13% deste grupo conseguiu manter-se na categoria de “abonados”. Sobre os 87% restantes não se têm mais notícias, embora, possivelmente não tenham se tornado pobres.

Esta mesma pesquisa realizada por uma instituição financeira que está entre as três maiores gestoras de patrimônio do mundo, indica que toda família considerada rica, e que gaste mais do que 3% da sua riqueza ao ano, está correndo risco.

A maioria das 87% de famílias que deixaram a categoria de membros do clube dos afortunados gastou acima de 5% ao ano e não diversificou seus investimentos de forma que ficassem protegidos das instabilidades do mercado e o processo de globalização que se mostrou muito mais intenso na década 90.

Outra notícia recente, vinda do nosso país vizinho, a Argentina, mostra que das últimas três fortunas familiares existentes sobram apenas duas. Diz a notícia que “com sua fortuna drasticamente reduzida, e depois de ter vendido os grandes quadros de sua outrora frondosa coleção de arte, a “baronesa do cimento”, como era conhecida Amália Fortabat, ou “Amalita”, comandante do Grupo Fortabat, teve que finalmente desfazer-se da Loma Negra, uma das últimas grandes empresas ainda em mãos de uma família Argentina. A empresa, que dominava 48% do mercado de cimento do país, foi vendida à brasileira Camargo Corrêa.”

Diz ainda a notícia que agora “sóbrios e discretos, restam dois grandes nomes da aristocracia empresarial Argentina: os Pagani e os Roca. A primeira família controla a Arcor, maior produtora mundial de balas e doces. A segunda família domina a Techint, principal empresa do mundo em fabricação de tubos de aço sem costura.”

Sobre o panorama brasileiro é desnecessário qualquer análise tendo em vista que é uma realidade por todos conhecida. Afinal, os números indicam que de cada 100 fortunas dos últimos 30 anos, apenas 18 permaneceram.

Importa registrar que esta tendência, tanto mundialmente como no Brasil, é cada vez maior. O aumento da complexidade no mundo, tanto política, geográfica,social e econômica só tende a se ampliar.

Existem alguns aprendizados importantes registrados pelas famílias e empresas que conseguiram manter-se na lista das maiores fortunas.

Eis alguns:

-Cortar custos e administrar com austeridade não é uma providência para apenas um momento, quando a vida está difícil. Deve ser um princípio de aplicação permanente.

- Prepare os herdeiros – desde crianças – para uma saudável relação com o dinheiro e poder. E faça-os conhecer a origem e história de como tudo começou. Para muitos ainda existe a falsa idéia que “na época dos meus avós tudo era mais fácil...” O grande legado não é apenas material, mas também moral.

- Cada geração deve agregar valor ao patrimônio. Se isto não ocorrer, ele acaba.

- Os descendentes devem reduzir seu grau de dependência financeira do patrimônio herdado. Buscar fontes alternativas de liquidez e sua realização pessoal e profissional é de suma importância. Pessoas realizadas agregam valor. As frustradas e insatisfeitas destroem valor.

- Crie, ou contrate, uma competente estrutura para gerir o patrimônio de forma profissional e buscando atender o interesse coletivo.

- Transfira a gestão das necessidades de apoio e desejos pessoais para as pessoas, ou crie uma estrutura com esta finalidade. Não utilize a empresa, ou seus funcionários, para estas atividades.

- Não descuide de elaborar, e manter atualizado, um bom planejamento tributário.

- Mantenha fundos de reservas, e as pessoas preparadas para situações de emergência (segurança pessoal, separações, mortes,doenças, etc.).

Enfim, é possível observar com o aprendizado das famílias que conseguiram administrar de forma produtiva seus patrimônios, que manter é tão, ou mais, desafiador do que conquistar.

Renato Bernhoeft