Executivo não familiar na empresa familiar


 

A tendência tem sido apontar a empresa familiar como uma opção que os profissionais devem evitar a qualquer custo. Este equívoco, que muitas vezes tem sido até enfatizado por consultores e profissionais ligados ao mundo acadêmico deve ser revisto com a maior urgência. E também por uma questão de respeito e consideração com inúmeros casos de sucesso, tanto no Brasil como no exterior, de empresas controladas por fundadores e, posteriormente, pelos seus herdeiros.

Um recente exemplo positivo nos chega da Grã-Bretanha, que nos últimos quatro anos vive uma profunda crise no setor de varejo. Ela foi enfrentada com sucesso e bons resultados pelas empresas de capital fechado. E tudo isto por aquilo que considero um dos pontos mais fortes, quando bem trabalhado, para os profissionais que optem por fazer carreira nas empresas familiares. Refiro-me à possibilidade de tomar decisões rápidas com um alto grau de flexibilidade para implementá-las.

Na incerteza brasileira

Recentemente conversava com um grande empresário familiar no Brasil sobre as forças e fraquezas da empresa familiar. E ele respondeu-me com um exemplo prático. Quando dos efeitos do Plano Collor I sua empresa conseguiu substanciais vantagens sobre uma concorrente multinacional. E a razão para este festejado resultado foi exatamente o fato de que tendo o seu centro de decisões aqui, pode redirecionar sua estratégia com muita rapidez. Enquanto isto a multinacional gastava horas de explicações telefônicas e "fax" para que os controladores, na casa matriz, pudessem entender o que estava acontecendo no Brasil.

Esta foi a mesma situação que produziu o sucesso, numa economia extremamente adversa, para as redes de varejo inglesas River Island, C&A e Littlewoods. Por serem empresas familiares e de capital fechado, conseguiram transformar aquilo que para as suas concorrentes era um problema, em uma oportunidade.

Falando da realidade brasileira, extremamente incerta tanto do ponto de vista econômico, político e social, esta pode tornar-se uma vantagem competitiva para as empresas familiares. Mas evidentemente tudo isto depende de que os controladores tenham entre si acordos muito  claros sobre as prioridades, estratégias e estrutura de poder. Para os profissionais que pretendem fazer carreira em empresas nacionais, de capital fechado, podemos enumerar algumas vantagens.

a) Proximidade do centro de decisões - considero que este fato pode gerar algumas oportunidades para executivos interessados em exercer sua influência num âmbito mais amplo do que simplesmente tomar decisões de caráter rotineiro. Profissionais criativos, ambiciosos e com espírito empreendedor podem obter campo para realizações pessoais e profissionais neste cenário.

 b) Carreiras mais horizontais - uma das reações e problemas que as grandes empresas multinacionais tem enfrentado é uma certa passividade dos seus executivos pelo fato de que suas carreiras, de maneira geral, são muito verticalizadas, o que os tornam profissionais com visão limitada. Na empresa familiar é possível ampliar, consideravelmente, este ângulo de visão. Um executivo terá a possibilidade de transitar, com maior facilidade, por várias áreas da empresa. E, na medida que se disponha a fazê-lo, amplia o conceito e a prática das diferentes interfaces que a empresa possui. Isto o torna muito mais flexível e com maior capacidade para uma atuação estratégica.

 c) Desenvolver sistemas alternativos de remuneração - um dos mecanismos que a empresa familiar tem condições de desenvolver é a forma participativa de remuneração. Considerando-se que esta é uma tendência natural para as empresas que desejam manter-se competitivas, com muito mais razão ela deve e poderá ser implementada nas empresas familiares. Já foi bastante comprovado o efeito positivo que a participação sobre os resultados pode ter no moral e comprometimento dos executivos.

 Enfim, a relação de outros fatores positivos, mas de menor importância, poderia continuar. Julgamos fundamental destacar aqueles que exercem um papel chave sobre as opções de carreira dos nossos profissionais. É claro que existem muitos problemas também, que poderiam começar pelo simples fato reverso dos pontos apresentados acima. Mas estes não precisam ser destacados pois já são amplamente divulgados. O propósito deste artigo é estimular os profissionais, e especialmente os jovens, a terem uma visão menos preconceituosa das empresas familiares. E acima de tudo passarem a considerá-las também entre as suas alternativas de escolha profissional.

Renato Bernhoeft