Empresa familiar no Brasil: Origens e perspectivas


 

As origens da empresa familiar no Brasil têm uma profunda relação com os fluxos migratórios que aportaram no país entre e após as duas grandes guerras mundiais. O pioneirismo que caracterizou o espírito empreendedor da maioria dos seus fundadores impregna de maneira muito forte a história e identidades destas organizações: Italianos, que ainda hoje é o grupo predominante no perfil dos iniciadores do nosso processo de industrialização. Seguidos por portugueses, alemães, judeus e árabes (de diferentes origens), para surgirem mais recentemente os japoneses. É claro que vamos encontrar, regionalmente, alguns grupos mais localizados. Como poloneses no Paraná e Espanhóis (da Galícia especialmente) na Bahia. Mas existem muitos outros agrupamentos como gregos, russos ou ucranianos. Evidente que encontramos também brasileiros, mas ligados muito mais aos processos extrativos. E até alguns ingleses, norte-americanos e franceses. Mas estes não foram imigrantes convencionais. A maioria veio para cá na condição de executivo de uma empresa do seu país de origem. Gostou da nossa vida mais descontraída e foi ficando. E para tornar-se empresário adquiriu uma empresa já constituída.

 Toda esta trajetória realizada durante o período do Brasil República pode ser dividida em dois grandes períodos. A fase Getulista, que estimulou o surgimento da indústria de base nacional, e a era Juscelinista, que é marcada pela entrada do país no mundo da indústria automobilística. Posteriormente o período militar apenas estimulou a estatização - com a bandeira nacionalista - e dentro da mesma teoria introduziu o Brasil na era petroquímica.

 Observado este quadro, sem uma análise muito profunda e extensa, verificamos que a característica principal era de um mercado fechado, protegido pelas relações com órgãos governamentais que tudo regulavam. Produtividade, preço, custos, etc., não eram assuntos em que a referência era o consumidor. Bastava boas relações em Brasília (que substituiu o Rio de Janeiro), para que tudo pudesse ser resolvido a contento. Em muitas empresas a equipe de "lobbistas" e advogados era até maior que a de engenheiros ou técnicos que dominassem o produto ou serviço. Pois era entre estes que as decisões eram tomadas.

 Mas alguns fenômenos muito rápidos, e para os quais grande parte não estava preparada, atropelou todo este processo.

 A globalização tornou o Brasil participante ativo da mundialização dos mercados, economia, produtos e serviços. Pouco a pouco foram desaparecendo os vários setores que ainda se apoiavam no mercado fechado ou monopólios acomodados pela falta de desafios.

 Paralelamente à esta situação conseguimos viabilizar uma estabilidade econômica que também abalava os alicerces da empresa nacional. Desaparecia o lucro fácil que calculava o custo à partir da matéria-prima. Agora o preço é fixado à partir do poder de compra do consumidor. Especialmente porque é possível fazer comparações de preço e qualidade.

 Ao mesmo tempo os nossos empreendedores envelheciam e muitos deles não sentiram a necessidade, ou nem aos menos tinham a capacidade, de tornar-se empresários. Atropelados ainda pelo surgimento dos herdeiros, que formados dentro da idéia de "dono", não compreendiam que a pulverização da propriedade lhes exigia um preparo maior, que não era apenas gerencial. Tornavam-se sócios sem este devido preparo o que os levava à disputas de poder, vaidades e "status". E foi este conjunto de fatores que levou muitas das nossas famílias tradicionais da coluna social para a página policial. E ainda hoje força uma radical mudança no perfil da empresa familiar brasileira.

 O grande mérito dos empreendedores (aquele que cria algo) não pode ser esquecido. Lamentavelmente muitos deles não conseguiram perceber que a sua obra - a empresa - estava se tornando maior do que o criador. Ou ainda, que ele - empreendedor - é mortal. Mas a empresa pode tornar-se imortal. Para isto era necessário tornar-se empresário e possuir um sonho ou aspirações maiores.

 É este o momento que vivemos no Brasil. Entre as questões relevantes podemos listar: Como perpetuar a empresa nacional de controle familiar? Como desvincular o controle da gestão, na medida em que o número de sócios-herdeiros aumenta? Como realizar associações ou parcerias com grupos estrangeiros? Como evitar que todos os membros da família não se tornem dependentes financeira e profissionalmente do negócio? Como manter a empresa capitalizada sem criar novas insatisfações familiares? Como criar mecanismos jurídicos e tributários que funcionem de forma preventiva para evitar disputas onerosas para todas as partes? Como tornar-se parte vital deste novo Brasil que se insere no contexto mundial?

 Estas são algumas das perguntas que os atuais grupos controladores da empresa nacional estão se fazendo e necessitam urgentes respostas.

Renato Bernhoeft