Cuidados na venda da empresa familiar


 

Adquirir uma empresa familiar no papel de comprador é uma operação normal como qualquer outra. Mas para os que vendem tem se tornado, em muitas circunstâncias, um processo doloroso como desfecho de prolongados desgastes emocionais, financeiros e de imagem. E esta análise vale tanto para fundadores como herdeiros que chegam a esta situação sem muitas vezes terem esgotado outras alternativas de diálogo. Do ponto de vista econômico estamos nos referindo à operações que apenas no ano passado chegaram à cifra de 13,5 bilhões de dólares e envolveram 369 transações. No primeiro semestre de 97 foram negociadas 172 empresas entre aquisições, fusões e joint ventures.

 Este quadro é ainda mais grave se considerarmos que a maioria das empresas familiares brasileiras não está sendo vendida, mas comprada. Ou seja, pela falta de entendimento entre os acionistas controladores os interessados em aquisições tem feito excelentes negócios. Ampliam sua participação no mercado brasileiro por um custo muito baixo e terminam pagando com a receita da própria operação da empresa. A finalidade deste artigo é relacionar alguns cuidados aos que estão percebendo, entre os seus controladores ou na empresa, a impossibilidade de continuarem juntos. E estas causas podem estar no mercado como também entre os acionistas, ou até mesmo num misto das duas.

Eis algumas medidas práticas:

 a) Esgote todas as alternativas anteriores  - Considere que vender deve ser a última decisão e muito amadurecida após esgotar todas as chances anteriores - manter o controle injetando capital; realizar uma cisão parcial ou total; negociar saída de sócios com patrimônio; conseguir um novo sócio, etc. - e feita com uma base de concordância de todas as partes.

 b) Elabore um "Acordo de Conduta" - Um dos grandes problemas que muitas sociedades familiares enfrentam é que quando chegam a decisão da venda já houve muito desgaste nas relações entre os herdeiros-sócios. Em inúmeros casos tudo isto já é do conhecimento de funcionários, agentes financeiros, clientes, fornecedores e até mesmo da comunidade em geral através da mídia. É bom lembrar que muitas empresas tem se tornado também presas fáceis de intrigas provocadas por  agentes interessados em fazer o melhor negócio para os compradores.

 Diante deste quadro é recomendável discutir e elaborar um "Acordo de Conduta" que obtenha de todos os sócios vendedores um compromisso de manterem uma postura e comportamento que agreguem valor ao negócio. É muito fácil continuar mantendo atitudes que retiram valor. E isto deve ser evitado até o momento da conclusão das negociações. Detalhes como sigilo, relacionamento com a mídia, funcionários, clientes, comunidade em geral, amigos, etc. devem ser claramente discutidas.

Deve se conseguir de todos um claro entendimento que ninguém, isoladamente, vai levar alguma vantagem. A hora, mesmo que seja a última oportunidade como  grupo, é de somar esforços para valorizar a transação. Somente assim todos ganham.

 c) Indique responsáveis - Toda venda envolve um processo complexo e as vezes prolongado de negociações. Para tanto é útil ter responsáveis para cada assunto no grupo. Eles devem ser legitimados na sua atuação e manterem o respeito do grupo durante todas as etapas do processo. Algumas áreas exigem pessoas muito habilitadas, tais como a que deverá coordenar o processo de avaliação, contato com interessados na compra, cuidados no relacionamento com clientes, fornecedores e funcionários. Estas pessoas devem ser escolhidas pelo grupo e manter com o mesmo reuniões periódicas. Os encontros devem ser feitos em local isolado da empresa, onde os temas possam ser discutidos com muita liberdade mas de forma sigilosa. Não esqueça, paredes, motoristas, secretárias, copeiras e vigilantes possuem ouvidos. Recomenda-se também indicar um Coordenador Geral das relações familiares para administrar eventuais dúvidas ou conflitos que ainda possam surgir entre o grupo controlador. Nunca expresse divergências frente os compradores.

 d) Projetos pessoais-profissionais - É muito importante que ao longo das negociações todos os que tem parte interessada no assunto iniciem a busca concreta de projetos para "o dia seguinte". Tenho observado que muitas negociações sofrem fortes entraves porque as pessoas não possuem planos definidos do que vão fazer com suas vidas na medida que deixem de ser sócias e tenham a liberdade de utilizar e administrar seus próprios recursos. É curioso, mas muitos sócios-herdeiros manifestam forte incômodo com a situação que vivem, mas quando confrontados com a liberdade de poder iniciar um  novo projeto, e desta vez pessoal, ficam perdidos e dificultam uma negociação. É útil sempre lembrar que esta é a grande chance para herdeiros, que não se escolheram como sócios, poderem examinar opções pessoais. Mas para isto devem ter clareza da forma que pensam encaminhar suas vidas. A negociação, bem como suas condições e as "moedas" que a envolvem ficam facilitadas com projetos pessoais definidos.

 Enfim, é sempre bom lembrar que este é um processo muito delicado. Para um fundador ou herdeiros não existe moeda que pague sentimento, dedicação ou sensação de fracasso . Vale a pena sempre ter em conta que importa perpetuar a empresa e permitir que os familiares continuem sua trajetória. Estas idéias não esgotam o tema mas servem de alerta e reflexão para quem está considerando esta alternativa.

Renato Bernhoeft