Controle e gestão - Os erros continuam


 

Tentar resolver problemas certos através de uma abordagem errada continua colocando em risco o futuro das empresas nacionais. E também o conceito de renomados executivos que após uma brilhante carreira como empregados usam sua experiência na emergente atividade conhecida como gestão temporária.

 Procurar resolver problemas, divergências ou conflitos societários entre controladores - sejam ou não familiares - através da contratação do que tem sido chamado de "gestão profissional" é aplicar um remédio equivocado num paciente com diagnóstico nem sempre tão evidente. 

Embora tenhamos que reconhecer que a globalização, a estabilidade da economia e o esgotamento do modelo empresarial brasileiro trouxeram para o cenário empresarial novos desafios, verdadeiras causas dos problemas nem sempre estão localizadas no gerenciamento dos negócios. Estes novos desafios apenas fizeram aflorar velhos conflitos entre controladores que antes estavam encobertos pelo lucro fácil e farta distribuição de resultados. E para tanto basta observar que muitas empresas nacionais que foram apresentadas como casos de "venda", na realidade foram "compradas". Seus acionistas já não tinham clima para decidir sobre a necessidade de novos aportes de capital e muito menos entendimento para colocar um preço de venda através de um sistema consensual.

 Entre os vários grupos que não foram vendidos buscou-se a simplista solução de contratar uma "gestão profissional" para colocar ordem na casa ou fazer o "trabalho sujo" - cortes de pessoal e despesas - que os acionistas não tinham coragem e entendimento para fazerem.

 O mais grave é que este quadro ainda persiste e continua sendo examinado dentro de uma perspectiva falaciosa, tanto do mundo acadêmico, consultores e analistas em geral. Ou seja, confundindo questões oriundas das relações entre os controladores como assunto que se resolve com ações gerenciais corajosas.

 É chegada a hora de romper com este ciclo perigoso pois ele só beneficia os que se alimentam do conflito ou de compradores espertos de empresas com grande potencial futuro.

 Quando os acionistas contratam uma gestão externa devem ter claro se esta é sua real necessidade. E mesmo nestes casos é importante avaliar bem a relação de confiança, com base em um "perfil" bastante discutido, sobre a relação do executivo contratado e todos os controladores. Jamais deve ser contrato alguém que está respaldado apenas por um sócio, grupo ou facção. Isto é "queimar" o profissional por antecipação.

 Outro ponto a ser bastante analisado é que se a verdadeira causa do problema está nas divergências de interesses, conflitos ou prioridades dos controladores a ação deverá ser encarar este assunto primeiro. Ou seja, em muitas destas circunstâncias o grupo necessita muito mais um "facilitador" que possa contribuir para clarificar os problemas e estabelecer acordos. Estes podem apenas serem de conduta dos sócios ou até um contrato que delimite direitos e obrigações de todas as partes. O importante nestes processos é que eles sejam "construídos" com o grupo e não preparados em escritórios de especialistas como "prato pronto". É útil sempre lembrar que todo processo envolvendo decisões societárias deve ser conduzido como exercício da própria relação. Nestes casos a forma é tão importante quanto o conteúdo dos acordos fixados. 

Existem casos onde os conflitos societários já estão num nível tão extremo que afetam o desempenho da empresa. Vale lembrar que não se podem esconder estas divergências, por muito tempo, do quadro executivo das empresas. Eles não apenas percebem como até podem intensificar os conflitos estabelecendo alianças com algumas das partes. E isto pode ser fatal. A história recente das empresas nacionais brasileiras têm inúmeros exemplos desta ordem. Mas é evidente que uma outra solução é procurar agir de forma paralela. Ou seja, na medida em que o grupo societário procura solucionar suas questões encaminha também ações específicas para a empresa e seu quadro gerencial.

 Em geral estas medidas terminam agregando muito valor a empresa.

 Pois além de preservá-la dos conflitos entre os controladores dão tranquilidade à quem recebe a missão de administrar os negócios. O que não pode acontecer é esperar que um brilhante executivo possa funcionar também como árbitro das divergências daqueles que detém as decisões sobre os riscos do capital. É um equívoco além de uma mistura perigosa. Tem custado muito caro para todas as partes pois fica sempre a sensação de fracasso. Ou resulta na troca de acusações mútuas. É bom tomar estes cuidados para que o lucro e prestígio de uma empresa de sucesso, no passado, não fiquem com os administradores dos litígios, do presente.

Renato Bernhoeft